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Revisão profunda

revisarEste artigo é comprido e merece ser lido com cuidado. Ele é útil para aqueles que terminaram de contar uma história e sabem que estão próximos das grandes modificações que todos os textos requerem.

Por experiência própria e por ter feito “n” revisões em textos alheios, sei que isso é diferente do que imagina. Escritores acham que colocar palavras no papel em sequência lógica representa escrever um livro.

Além disso, podem imaginar que o trabalho de deixar o texto “redondo” é apenas do editor e do revisor…

Não, não e não!

Sua nova vida, de ESCRITOR, começa agora…

Por favor, imprima o artigo, pegue um copo de suco — ou uma taça de vinho… — e dedique-se a fazer a leitura completa deste texto antes de aplicá-lo ao seu original.

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10 minutos para planejar seu próximo livro

10 minutos para planejar seu livroTudo bem, eu te entendo. Você tem 1000 coisas para fazer por dia e não tem tempo para mais nada e sua história ficou em último plano . Sim, estou com você, de forma solidária.

Agora podemos sair do terreno das desculpas e passar para a ação? Ótimo.

Se está lendo isso, eu aposto que está na frente de um computador. Poderia ser um celular, um Ipad, um notebook, mas de qualquer forma, é um aparelho que serve ao seu propósito, que é o de escrever. Claro que não recomendo que redija o novo Crepúsculo no teclado de um Blackberry; nesse caso, um bloco de notas e uma caneta servirão, perfeitamente.

A primeira coisa a fazer, é ser absolutamente honesto: quanto tempo por dia você gasta no Facebook, esculpindo uma frase em 140 caracteres para o Twitter ou “lendo, editando, compartilhando” piadas e textos através de emails?

Comecei com o mais comum, mas não com o mais frequente… É possível que seus minutos estejam sendo sugados “pelas marmotas malvadas do filme Feitiço do Tempo“, enquanto você procura por um colega de escola, conversa num chat, ou bate palmas para os malucos dançarem, nos fóruns. Errei? Você, e só você, não faz isso, certo?

Todos nós estamos nessa. O tempo, aquele do qual precisamos para realizar os nossos objetivos, parece ficar fora do controle, quando temos… tempo! Isso porque, quando a coisa é séria e seu chefe pede um relatório “para ontem”, ele é produzido em 35 minutos! Mas sobra de tempo, isso sim, é problemático.

Então, concluímos que não nos falta tempo para escrever — fazemos isso a cada postagem no Facebook, a cada microfrase no Twitter. A questão é o bom uso do período que temos, independente de ser curto ou longo.

Daí, a segunda conclusão: no que isso difere da construção da sua história?

Quando explica que passou o final de semana em Penedo, com a Marcia e o Paulo, “(…) aqueles que casaram no ano passado, lembra? Não? A Marcia, que é loira e muito alta…? Sabe?” e espera a resposta do interlocutor para a continuação do seu diálogo, “construiu” um pequeno enredo. E se entrar em detalhes, estará cuidando da trama.

Muito bem: faça isso com a sua história!

Minha sugestão é que divida seu dia — ou seus dias — em blocos de 10 minutos e trabalhe no planejamento do seu texto, o que para a maiora dos escritores, é o mais complicado.

(Olhe, não vou explicar nesse post que uma história sem planejamento, é um barco sem comandante… Isso fica para uma próxima postagem, certo?)

Podemos fazer um teste?

  • 10 minutos para contar, em um ou dois parágrafos sobre a ideia geral do seu texto. O resultado disso é uma sinopse;
  • 10 minutos para dividir a sinopse em 4 partes. Dê um título a cada uma delas. Cada um dos blocos será chamado de ato;
  • 10 minutos para dedicar-se a um dos atos, dividindo-o em partes menores, das quais sairá um esboço de capítulos. Não é nem necessário que comece pelo primeiro ato, ou faça isso em sequência. Às vezes, temos mais certeza de um final, do que do meio da história. As peças irão juntar-se no final, confie em mim;
  • 10 minutos para levantar, de cada capítulo, os pontos fortes. Estes compões suas cenas.

Pausa de, ao menos dois dias, sem abrir o arquivo de planejamento, ou o bloco de notas… Depois:

  • 10 minutos para rever sinopse, atos e capítulos. Agora é hora de consertar a rota, se for preciso;
  • 10 minutos para rever as cenas, agora, encaixadas corretamente;
  • 10 minutos para biografar cada personagem de sua história. Prepare fichas individuais com as principais características e use quantos “10 minutos” precisar;
  • 10 minutos para definir, genericamente, os locais e ambientes. Organize seus arquivos, ou imprima roteiros, mapas e fotos.

Pronto! Você concluiu o planejamento e pode dedicar-se a pesquisar, detalhar, escrever e terminar o texto.

Quanto tempo isso levará? Minha conta somou uma estimativa de 4 atos, 4 capítulos em cada ato, com 4 cenas em cada capítulo e 5 personagens… Isso deu 420 minutos, ou 7 horas! Que tal transformar em 1 hora por dia e, em uma semana, preparar seu esboço para começar a escrever?

Agora, tem condições de decidir como e em quanto tempo, escreverá a história toda.

Eu, por exemplo, trabalho em cenas, nem sempre na mesma ordem planejada, mas isso pode parecer confuso para quem não tem muita prática com esboços. Não importa: o pulo do gato é concentrar-se em seguir a rota que traçou, como se fosse um plano de viagem, um guia. Numa viagem, podemos visitar um Museu antes de ir à praia, ou ao contrário e isso só depende da nossa disposição naquele momento. Com o texto, é exatamente igual.

Segure o seu guia com as duas mãos e vá em frente!

Coisas que se perderam no tempo

 

i373869Por Iara Bichara

Sou de um tempo em que os filmes emocionavam; em que as canções eram decoradas; em que os luares eram festejados…

Os entardeceres eram brindados com cadeiras nas calçadas e os vizinhos conversavam alegremente enquanto as crianças brincavam…

O pipoqueiro preparava a pipoca na hora, assim como o homem do algodão doce. Vez por outra, aparecia um vendedor de cocadas ou de amendoins… O amolador de tesouras e facas tinha seu apito característico e o vendedor de bijus, sua matraca inconfundível.

Os quitutes eram divididos entre os amigos e eu esperava sempre pelos suspiros crocantes que Elza, amiga de minha mãe, fazia com os ovos fornecidos pelo nosso galinheiro. Dona Eugênia fazia pamonhas deliciosas e os Strufulis de Dona Tereza jamais serão esquecidos.

Receitas e mudas de plantas eram trocadas e também as dicas sobre as novidades que surgiam em países da Europa ou nos Estados Unidos, especialmente sobre os eletrodomésticos, que eram a sensação do momento.

Todas as crianças iam para a escola a pé e sozinhas. Quando se atrasavam, os pais não temiam o que tivesse acontecido com elas, mas as artes e encrencas que estivessem aprontando.

Professora era sinônimo de respeito e tinha total autoridade no seu espaço. Os docinhos e flores que levávamos para as mais simpáticas, de nada valiam quando se tratava de bagunça, de briga ou de insubordinação.

As provas eram escritas e orais e todos assistiam à vitória ou ao vexame, no maior silêncio, sabendo que também passariam pelo mesmo cadafalso.

As classes eram bastante heterogêneas, tanto em questões raciais, quanto econômicas e isso não fazia a menor diferença, pois todos usavam uniformes iguais, do sapato até a gravata, tanto meninas, quanto meninos.

Discórdia sempre existia, mas era resolvida na hora. Os mais bobinhos sempre tinham um irmão mais velho ou amigo que os defendiam e acabavam com a disputa.

Também sempre havia os que tiravam notas melhores e os que repetiam o ano, mas isso não era motivo para troca de escola, nem para traumas. A vida seguia seu curso e, no final, todos acabavam se encaminhando na vida.

As amizades eram antigas e as pessoas se visitavam constantemente e isso criava um vínculo de cumplicidade e ajuda que perdurava por gerações.

Minha adolescência foi repleta de inocentes “bailinhos”, nome vulgar das “Reuniões Dançantes”, realizados nas tardes dos finais de semana, geralmente em garagens ou pequenos clubes, cujos convites eram vendidos para angariar dinheiro para o baile de formatura do Ginásio.

Aliás, esse era o evento mais esperado das férias. Os convites eram restritos à família e aos amigos mais próximos dos formandos e eram disputados arduamente.

Os trajes eram caprichados e a escolha dos salões era feita com anos de antecedência, assim como a das orquestras. Quem não dançou no Salão do Aeroporto de Congonhas, com sua nobre escadaria de corrimões dourados, ao som da Orquestra de Pocho, não sabe o que era requinte. E o melhor era ficar até o final do baile para participar da apoteose da orquestra e tomar o famoso café do saguão do aeroporto.

Outros clubes, como o Pinheiros, o Holms e outras orquestras, como Simonetti, Severino Araújo, Erlon Chaves, também faziam muito sucesso. Claro que não podiam faltar as canções de Ray Conniff  – quando tocava “La Mer”, ninguém ficava sentado.

Porém, o máximo da elegância era o Chá de Formatura do Fasano, tradicional em alguns colégios de freiras. Mesmo quem não tinha muitos recursos, ou era bolsista, economizava por anos para participar desse grande dia.

Esse glamour ingênuo que terminou nos anos 60 deu lugar ao medo, à repressão, à desconfiança que permearam o final da década e as que se seguiram.

A partir daí, que pena, a nossa cidade mudou… Entristeceu… Ficou pálida… Trancou-se dentro da sala e ligou a televisão. Trancou portas e janelas. Comprou uma casa, um carro, outra casa na praia, um chalé na montanha e empobreceu…

Nunca mais retomou sua alegria, pois o dinheiro não compra o riso, nem a amizade pura e sincera. Nem a tecnologia substitui o calor de um abraço, de uma prosa descompromissada ou de um sonho!

Leitura Harmonizada: Estórias da Casa Velha da Ponte

É com toda a reverência e respeito que passo para vocês a sugestão de hoje.

Certamente, se perguntarem a qualquer um de nós quem foi Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, pouquissímas pessoas se atreverão a responder. Mas quando se fala em Cora Coralina, mesmo aqueles que nunca leram uma de suas histórias, ou um de seus belos poemas, lembrar-se-ão, imediatamente, daquela mulher miúda, de olhos vivos e espertos, de rostinho marcado pelo tempo vivido e emoldurado pelos brancos cabelos.

Cora Coralina, pseudônimo escolhido pela autora quando jovem, mas com o qual passou a ser chamada depois dos 50 anos de idade, era filha de um desembargador nomeado por D. Pedro II. Nasceu em 20/08/1889 e foi criada na antiga Vila Boa de Goiás, em um casarão comprado por seu bisavô, às margens do rio Vermelho.

Cursou apenas as quatro séries do curso primário, coisa que na época era um grande feito para as mulheres, e com 14 anos de idade, tinha seus textos publicados nos jornais de Goiás. Porém, seu primeiro livro foi publicado somente em 1965, quando Cora Coralina estava com quase 76 anos de idade.

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