Por que ouvir duas vezes a mesma história?

contoPor Alê Barello

Tem gente que me acha louca quando falo que leio duas, ou mais vezes, o mesmo livro…

O que essas mesmas pessoas se esquecem é de que quando pequenas, muito provavelmente, ouviam mais de uma vez as mesmas histórias; não se cansavam de ver os mesmos desenhos e adoravam ver a reprise do filme da Leoa Elza na Sessão da Tarde!

No caso das crianças e em relação aos Contos de Fadas, há uma explicação: existe uma parte da trama que ainda não foi compreendida. Assim, quando uma criança pede para que contemos novamente a mesma história é interessante fazer uma pergunta simples:

— Qual pedaço quer ouvir de novo?

Normalmente, elas respondem com rapidez e até sentem alívio em cortar caminho.

Note, porém, que o termo “compreensão” não é de todo racional. É o emocional que pede uma explicação para a maçã que envenena, para o menino que se perde na floresta, ou para o vitória contra o gigante.

Os arquétipos contidos nos Contos de Fada são acomodados no inconsciente e mais tarde, quando uma situação semelhante ocorre na vida real podem ser resgatados com facilidade, se estiverem registrados.

Registro tem a ver com repetição. Não é memória, é um tipo de encadeamento muito sutil, que dá sentido ao que foi apreendido.

E quanto a nós, os adultos que veem muitas vezes o mesmo filme ou leem diversas vezes os mesmos livros?

Se não somos iguais nem de um dia para o outro, que dirá de uma leitura para a outra!

A cada vez que relemos ou revemos um conteúdo ele está igual; nós é que estamos diferentes.

Livros e filmes são os contadores de história nas fogueiras das noites frias de um tempo que está muito distante, na composição de cada civilização.

Nossos ancestrais só tinham uma forma de perpetuar a cultura e os costumes: repetindo histórias que serviam para todos os propósitos e torcendo para que, se fossem memorizadas, continuassem a ser contadas para os filhos, netos, bisnetos e assim por diante.

Hoje, queremos uma coisa nova por dia.

“Que graça há em ouvir, novamente, a mesma história?”

Sente-se: isso pode impactar sua vida para todo o sempre…

Não existem muitas histórias diferentes. Os cenários, nomes e condições são trocados, mas a estrutura respeita uma gama mínima de possibilidades, que talvez não chegue a ocupar todos os dedos de duas mãos.

Ouvir as histórias dos outros, de novo, significa rever as suas. Querer histórias novas é desejar, lá no fundo, que seus próprios problemas tenham uma solução que ainda não foi revelada.

Valha-se disso e percorra, quantas vezes necessitar, as mesmas histórias.

O que você precisa pode saltar, de repente, numa frase que você nunca tinha prestado atenção.

Lindas Mulheres

maoPor Iara Bichara

Vinicius de Morais, grande poeta e compositor brasileiro, reverenciado por todos da nossa geração como um grande galanteador e amante inveterado, sabia como ninguém, tocar o coração das mulheres. Adorável em suas colocações e doces palavras, o “poetinha”, como era conhecido, cometeu uma grande falha, quando disse: “que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental”.

Beleza não é apenas fundamental, mas imprescindível. Porém, enganou-se Vinicius, pois não existem mulheres feias. Existem mulheres tristes, mulheres sem autoestima, mulheres que ainda não descobriram o quanto são belas.

Há algo mais sublime do que a nossa existência? E quem guarda a mágica que os cientistas tanto buscam reproduzir? A MULHER!

Toda mulher possui dentro de si o cálice da vida e, mesmo que nunca reproduza, na genética da biologia humana, vive a criar ao longo de sua existência. Mulheres criam filhos – seus e dos outros, criam projetos, criam animaizinhos, criam destinos, criam sonhos…

Desde muito pequenina, pode-se distinguir a força e a beleza que a mulher carrega e que não se extingue com o passar dos anos. Quando a força física começa a declinar é justamente quando brota a força de sua sabedoria. Hoje, com o aumento da longevidade e com todos os recursos que dispomos, encontramos mulheres que passaram dos sessenta anos e são mais interessantes atualmente do que quando tinham vinte.

Essa beleza, que irradia e contagia, não depende de grifes, de luxo, de plásticas, de peso, de tratamentos, de malhação e de todos os apelos a que estamos sujeitas a cada instante. Depende apenas do brilho no olhar, do agradecimento pela vida e do amor que podemos irradiar.

Portanto, vamos lá, lindas mulheres experientes, sábias e conhecedoras de seus poderes: assumam a beleza como um tesouro pessoal e a espalhem por todos os lugares onde passarem, espalhando alegria, carinho, emoções e, por que não, arrebatando corações!

Coisas que se perderam no tempo

 

i373869Por Iara Bichara

Sou de um tempo em que os filmes emocionavam; em que as canções eram decoradas; em que os luares eram festejados…

Os entardeceres eram brindados com cadeiras nas calçadas e os vizinhos conversavam alegremente enquanto as crianças brincavam…

O pipoqueiro preparava a pipoca na hora, assim como o homem do algodão doce. Vez por outra, aparecia um vendedor de cocadas ou de amendoins… O amolador de tesouras e facas tinha seu apito característico e o vendedor de bijus, sua matraca inconfundível.

Os quitutes eram divididos entre os amigos e eu esperava sempre pelos suspiros crocantes que Elza, amiga de minha mãe, fazia com os ovos fornecidos pelo nosso galinheiro. Dona Eugênia fazia pamonhas deliciosas e os Strufulis de Dona Tereza jamais serão esquecidos.

Receitas e mudas de plantas eram trocadas e também as dicas sobre as novidades que surgiam em países da Europa ou nos Estados Unidos, especialmente sobre os eletrodomésticos, que eram a sensação do momento.

Todas as crianças iam para a escola a pé e sozinhas. Quando se atrasavam, os pais não temiam o que tivesse acontecido com elas, mas as artes e encrencas que estivessem aprontando.

Professora era sinônimo de respeito e tinha total autoridade no seu espaço. Os docinhos e flores que levávamos para as mais simpáticas, de nada valiam quando se tratava de bagunça, de briga ou de insubordinação.

As provas eram escritas e orais e todos assistiam à vitória ou ao vexame, no maior silêncio, sabendo que também passariam pelo mesmo cadafalso.

As classes eram bastante heterogêneas, tanto em questões raciais, quanto econômicas e isso não fazia a menor diferença, pois todos usavam uniformes iguais, do sapato até a gravata, tanto meninas, quanto meninos.

Discórdia sempre existia, mas era resolvida na hora. Os mais bobinhos sempre tinham um irmão mais velho ou amigo que os defendiam e acabavam com a disputa.

Também sempre havia os que tiravam notas melhores e os que repetiam o ano, mas isso não era motivo para troca de escola, nem para traumas. A vida seguia seu curso e, no final, todos acabavam se encaminhando na vida.

As amizades eram antigas e as pessoas se visitavam constantemente e isso criava um vínculo de cumplicidade e ajuda que perdurava por gerações.

Minha adolescência foi repleta de inocentes “bailinhos”, nome vulgar das “Reuniões Dançantes”, realizados nas tardes dos finais de semana, geralmente em garagens ou pequenos clubes, cujos convites eram vendidos para angariar dinheiro para o baile de formatura do Ginásio.

Aliás, esse era o evento mais esperado das férias. Os convites eram restritos à família e aos amigos mais próximos dos formandos e eram disputados arduamente.

Os trajes eram caprichados e a escolha dos salões era feita com anos de antecedência, assim como a das orquestras. Quem não dançou no Salão do Aeroporto de Congonhas, com sua nobre escadaria de corrimões dourados, ao som da Orquestra de Pocho, não sabe o que era requinte. E o melhor era ficar até o final do baile para participar da apoteose da orquestra e tomar o famoso café do saguão do aeroporto.

Outros clubes, como o Pinheiros, o Holms e outras orquestras, como Simonetti, Severino Araújo, Erlon Chaves, também faziam muito sucesso. Claro que não podiam faltar as canções de Ray Conniff  – quando tocava “La Mer”, ninguém ficava sentado.

Porém, o máximo da elegância era o Chá de Formatura do Fasano, tradicional em alguns colégios de freiras. Mesmo quem não tinha muitos recursos, ou era bolsista, economizava por anos para participar desse grande dia.

Esse glamour ingênuo que terminou nos anos 60 deu lugar ao medo, à repressão, à desconfiança que permearam o final da década e as que se seguiram.

A partir daí, que pena, a nossa cidade mudou… Entristeceu… Ficou pálida… Trancou-se dentro da sala e ligou a televisão. Trancou portas e janelas. Comprou uma casa, um carro, outra casa na praia, um chalé na montanha e empobreceu…

Nunca mais retomou sua alegria, pois o dinheiro não compra o riso, nem a amizade pura e sincera. Nem a tecnologia substitui o calor de um abraço, de uma prosa descompromissada ou de um sonho!