Coisas que se perderam no tempo

Espalhe essa Ideia!

 

i373869Por Iara Bichara

Sou de um tempo em que os filmes emocionavam; em que as canções eram decoradas; em que os luares eram festejados…

Os entardeceres eram brindados com cadeiras nas calçadas e os vizinhos conversavam alegremente enquanto as crianças brincavam…

O pipoqueiro preparava a pipoca na hora, assim como o homem do algodão doce. Vez por outra, aparecia um vendedor de cocadas ou de amendoins… O amolador de tesouras e facas tinha seu apito característico e o vendedor de bijus, sua matraca inconfundível.

Os quitutes eram divididos entre os amigos e eu esperava sempre pelos suspiros crocantes que Elza, amiga de minha mãe, fazia com os ovos fornecidos pelo nosso galinheiro. Dona Eugênia fazia pamonhas deliciosas e os Strufulis de Dona Tereza jamais serão esquecidos.

Receitas e mudas de plantas eram trocadas e também as dicas sobre as novidades que surgiam em países da Europa ou nos Estados Unidos, especialmente sobre os eletrodomésticos, que eram a sensação do momento.

Todas as crianças iam para a escola a pé e sozinhas. Quando se atrasavam, os pais não temiam o que tivesse acontecido com elas, mas as artes e encrencas que estivessem aprontando.

Professora era sinônimo de respeito e tinha total autoridade no seu espaço. Os docinhos e flores que levávamos para as mais simpáticas, de nada valiam quando se tratava de bagunça, de briga ou de insubordinação.

As provas eram escritas e orais e todos assistiam à vitória ou ao vexame, no maior silêncio, sabendo que também passariam pelo mesmo cadafalso.

As classes eram bastante heterogêneas, tanto em questões raciais, quanto econômicas e isso não fazia a menor diferença, pois todos usavam uniformes iguais, do sapato até a gravata, tanto meninas, quanto meninos.

Discórdia sempre existia, mas era resolvida na hora. Os mais bobinhos sempre tinham um irmão mais velho ou amigo que os defendiam e acabavam com a disputa.

Também sempre havia os que tiravam notas melhores e os que repetiam o ano, mas isso não era motivo para troca de escola, nem para traumas. A vida seguia seu curso e, no final, todos acabavam se encaminhando na vida.

As amizades eram antigas e as pessoas se visitavam constantemente e isso criava um vínculo de cumplicidade e ajuda que perdurava por gerações.

Minha adolescência foi repleta de inocentes “bailinhos”, nome vulgar das “Reuniões Dançantes”, realizados nas tardes dos finais de semana, geralmente em garagens ou pequenos clubes, cujos convites eram vendidos para angariar dinheiro para o baile de formatura do Ginásio.

Aliás, esse era o evento mais esperado das férias. Os convites eram restritos à família e aos amigos mais próximos dos formandos e eram disputados arduamente.

Os trajes eram caprichados e a escolha dos salões era feita com anos de antecedência, assim como a das orquestras. Quem não dançou no Salão do Aeroporto de Congonhas, com sua nobre escadaria de corrimões dourados, ao som da Orquestra de Pocho, não sabe o que era requinte. E o melhor era ficar até o final do baile para participar da apoteose da orquestra e tomar o famoso café do saguão do aeroporto.

Outros clubes, como o Pinheiros, o Holms e outras orquestras, como Simonetti, Severino Araújo, Erlon Chaves, também faziam muito sucesso. Claro que não podiam faltar as canções de Ray Conniff  – quando tocava “La Mer”, ninguém ficava sentado.

Porém, o máximo da elegância era o Chá de Formatura do Fasano, tradicional em alguns colégios de freiras. Mesmo quem não tinha muitos recursos, ou era bolsista, economizava por anos para participar desse grande dia.

Esse glamour ingênuo que terminou nos anos 60 deu lugar ao medo, à repressão, à desconfiança que permearam o final da década e as que se seguiram.

A partir daí, que pena, a nossa cidade mudou… Entristeceu… Ficou pálida… Trancou-se dentro da sala e ligou a televisão. Trancou portas e janelas. Comprou uma casa, um carro, outra casa na praia, um chalé na montanha e empobreceu…

Nunca mais retomou sua alegria, pois o dinheiro não compra o riso, nem a amizade pura e sincera. Nem a tecnologia substitui o calor de um abraço, de uma prosa descompromissada ou de um sonho!

Autor: Iara Bichara

Psicanalista, professora e escritora, é fundadora da Clínica da Palavra e responde pela área de Literapia e Biblioterapia Clínica.

3 comentários em “Coisas que se perderam no tempo”

  1. Minhas meninas queridas,PARABÉNS,esse texto veio de encontro com meus sentimentos e perguntas .
    Que saudades deste tempo,o quanto eramos felizes com toda simplicidade ,
    hoje com toda modernidade e facilidades ,estamos cada vez mais presos e mais distantes.
    Sem tempo ,pra se visitar,tomar um cafezinho,trocar receitas,risos ,brincadeiras ,
    enfim ……AFFFFF SAUDADES ,SAUDADES,SAUDADES,voltei no tempo .Bjs no coração.

  2. Que texto mais lindo…. vivi parte dessas lembranças.. morava em cidade pequena e tinha liberdade das brincadeiras de rua, e ia sem medo para a escola.. Ler esse artigo foi realmente uma viagem no tempo maravilhosa.. grata.. bjão

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *