Revendo prioridades

celularPor Alê Barello

Uma história para contar, de um tempo atrás...

“Informo, solenemente, que eu perdi meu celular!”

Ai ai ai!

Se eu fosse você, já estaria me perguntando: “o que eu tenho com isso?”

Vou chegar lá.

No final de 2013, perdi meu celular e com ele, milhares de informações contidas.

O tamanho não é exagerado. Minha lista de contatos tinha mais de 2 mil nomes, telefones e endereços eletrônicos. A parte de notas, estava lotada, tanto que já começara a deletar algumas e envia-las por email, para liberar espaço. Fotos, nem se fale! Fotografo momentos quaisquer, nada nem tão importante, nem tão urgente. A câmera não era a melhor parte do aparelho, mas minha vontade de registrar situações, placas, risadas e caretas era satisfeita com o clik. Tirava a foto e pronto, sossegava.

E sim, sofri bastante. Passei a primeira semana como as pessoas que perdem um parente por sumiço. Morte é diferente. Sumir não nos dá prova definitiva de separação. Não roubaram, tirando-o da minha mão com violência. Ele desapareceu, como se tivesse desmaterializado. Uma hora estava ali, na outra, nada.

Então começou o primeiro processo: culpa.

Pensei em todas as vezes que havia deixado o aparelho jogado; imaginei que poderia ser mais cuidadosa; por que é que eu não guardava as coisas sempre no mesmo lugar?

E sobre minha memória: o que era aquela lacuna entre a última vez que me lembro de tê-lo segurado e a manhã seguinte, quando dei por falta dele?

Usei tudo o que conhecia para me lembrar, em vão.

O segundo processo foi mais doloroso, porque era prático: o que havia dentro daquele  cérebro eletrônico que não estaria acessível no meu cérebro biológico?

A dor, no entanto, me libertou!

Posso listar, num guardanapo de lanchonete, daqueles pequenos e finos, os telefones das pessoas mais importantes na minha vida.  E para minha surpresa, quanto mais para trás na linha do tempo e do relacionamento, melhor ainda! Até de pessoas de quem me separei há anos, me lembro do número.

E tem aqueles com quem falo todos os dias e não sei mesmo nem mesmo dígito inicial! Mas ponho na conta da tecnologia: num dado momento deixei de selecionar e categorizar minha lista de importância e peguei de empréstimo a memória do celular.

Terceiro lugar nos processos: a aprendizagem vinda da experiência: uma lista de perguntas mentais, profundas e importantes, que vou mastigar nos próximos dias.

  • Quantos contatos, hein? Mas quantos deles, são relacionamentos?
  • Notas, notas e mais notas! Quantos pensamentos! Quantas listas de NUNCA MAIS ESQUECER E FAZER URGENTEMENTE PORQUE DISSO DEPENDE A MINHA FELICIDADE! E por que não fiz, se era tão importante? E por que não me lembro do que era para fazer, se achei que era tão importante?
  • O que está me levando a registrar cada momento? Estaria eu, tentando transformar os vários agora em uma história em quadrinhos, organizando numa linha de tempo os momentos banais? Como era minha vida antes da câmera do celular? Me lembro que registrávamos momentos significativos, importantes, datas e locais que realmente não deveriam ser esquecidos…  e aí? Tudo é significativo? Sim? Não?

Gratidão, celular perdido!

Estou viva, se bem que um pouco desacostumada a procurar novas alternativas para fazer velhas coisas, mas o fato me levou a diferentes caminhos…

Tive que ligar para três pessoas para achar o telefone de uma quarta. Desta forma, segui a trama dos relacionamentos e percebi que nada é tão problemático assim. Nem todo mundo tão importante assim. Nem tão perene assim! Posso mergulhar numa conversa com alguém, aproveitar ao máximo o encontro e nunca mais esbarrar na pessoa.  POSSO FICAR E POSSO PARTIR de um relacionamento.

Me lembro de notas e registros que continham meus sonhos, tarefas, atividades e desejos mais profundos. Os outros, não eram prioritários, tanto que nem sei deles! POSSO QUERER E POSSO DESISTIR DE PLANOS.

Quanto às imagens, ah… isso é interessante de contar: todas as fotos que adorei tirar, já compartilhei no meu Face, ou enviei por email para os queridos, na hora. As outras… poupei o trabalho de adivinharem o que eu pretendia ao registrar um pedaço de cabelo, um dedo do pé, um olhar estranho do gato, ou um pote de gelatina. Nem eu mesma saberia explicar. POSSO VER IMPORTÂNCIA EM CADA MOMENTO E POSSO VER O BANAL E O COMUM, MESMO NO IMPORTANTE.

Os amigos que precisaram falar comigo por celular tiveram paciência. Meu novo celular abriga poucos bytes e me proporciona o benefício de dar ao meu cérebro e ao meu coração a oportunidade de arquivar o que eu quiser, quando eu quiser.

Coisas que se perderam no tempo

 

i373869Por Iara Bichara

Sou de um tempo em que os filmes emocionavam; em que as canções eram decoradas; em que os luares eram festejados…

Os entardeceres eram brindados com cadeiras nas calçadas e os vizinhos conversavam alegremente enquanto as crianças brincavam…

O pipoqueiro preparava a pipoca na hora, assim como o homem do algodão doce. Vez por outra, aparecia um vendedor de cocadas ou de amendoins… O amolador de tesouras e facas tinha seu apito característico e o vendedor de bijus, sua matraca inconfundível.

Os quitutes eram divididos entre os amigos e eu esperava sempre pelos suspiros crocantes que Elza, amiga de minha mãe, fazia com os ovos fornecidos pelo nosso galinheiro. Dona Eugênia fazia pamonhas deliciosas e os Strufulis de Dona Tereza jamais serão esquecidos.

Receitas e mudas de plantas eram trocadas e também as dicas sobre as novidades que surgiam em países da Europa ou nos Estados Unidos, especialmente sobre os eletrodomésticos, que eram a sensação do momento.

Todas as crianças iam para a escola a pé e sozinhas. Quando se atrasavam, os pais não temiam o que tivesse acontecido com elas, mas as artes e encrencas que estivessem aprontando.

Professora era sinônimo de respeito e tinha total autoridade no seu espaço. Os docinhos e flores que levávamos para as mais simpáticas, de nada valiam quando se tratava de bagunça, de briga ou de insubordinação.

As provas eram escritas e orais e todos assistiam à vitória ou ao vexame, no maior silêncio, sabendo que também passariam pelo mesmo cadafalso.

As classes eram bastante heterogêneas, tanto em questões raciais, quanto econômicas e isso não fazia a menor diferença, pois todos usavam uniformes iguais, do sapato até a gravata, tanto meninas, quanto meninos.

Discórdia sempre existia, mas era resolvida na hora. Os mais bobinhos sempre tinham um irmão mais velho ou amigo que os defendiam e acabavam com a disputa.

Também sempre havia os que tiravam notas melhores e os que repetiam o ano, mas isso não era motivo para troca de escola, nem para traumas. A vida seguia seu curso e, no final, todos acabavam se encaminhando na vida.

As amizades eram antigas e as pessoas se visitavam constantemente e isso criava um vínculo de cumplicidade e ajuda que perdurava por gerações.

Minha adolescência foi repleta de inocentes “bailinhos”, nome vulgar das “Reuniões Dançantes”, realizados nas tardes dos finais de semana, geralmente em garagens ou pequenos clubes, cujos convites eram vendidos para angariar dinheiro para o baile de formatura do Ginásio.

Aliás, esse era o evento mais esperado das férias. Os convites eram restritos à família e aos amigos mais próximos dos formandos e eram disputados arduamente.

Os trajes eram caprichados e a escolha dos salões era feita com anos de antecedência, assim como a das orquestras. Quem não dançou no Salão do Aeroporto de Congonhas, com sua nobre escadaria de corrimões dourados, ao som da Orquestra de Pocho, não sabe o que era requinte. E o melhor era ficar até o final do baile para participar da apoteose da orquestra e tomar o famoso café do saguão do aeroporto.

Outros clubes, como o Pinheiros, o Holms e outras orquestras, como Simonetti, Severino Araújo, Erlon Chaves, também faziam muito sucesso. Claro que não podiam faltar as canções de Ray Conniff  – quando tocava “La Mer”, ninguém ficava sentado.

Porém, o máximo da elegância era o Chá de Formatura do Fasano, tradicional em alguns colégios de freiras. Mesmo quem não tinha muitos recursos, ou era bolsista, economizava por anos para participar desse grande dia.

Esse glamour ingênuo que terminou nos anos 60 deu lugar ao medo, à repressão, à desconfiança que permearam o final da década e as que se seguiram.

A partir daí, que pena, a nossa cidade mudou… Entristeceu… Ficou pálida… Trancou-se dentro da sala e ligou a televisão. Trancou portas e janelas. Comprou uma casa, um carro, outra casa na praia, um chalé na montanha e empobreceu…

Nunca mais retomou sua alegria, pois o dinheiro não compra o riso, nem a amizade pura e sincera. Nem a tecnologia substitui o calor de um abraço, de uma prosa descompromissada ou de um sonho!